Ela abriu os olhos pela manhã com tanta rapidez que parecia querer escapar de alguma coisa. Levantou-se e se olhou no espelho, a imagem refletida era quase desconhecida. O lindo cabelo se confundia facilmente com um ninho de pássaros, os olhos grandes e verdes estavam pequeninos e sujos, os lábios estavam ressecados e a face levemente amassada. Que noite! - pensou.
Enquanto penteava os cabelos começou a recordar-se do sonho que tivera:
Havia um velho sentado na praça da cidade, talvez uma papai-noel free lancer, cabelos e barba brancas, vestido com uma calça jeans tão velha quanto seu sorriso, uma camiseta branca com a velha e famosa lingua de uma banda de rock, usava um all star que um dia fora branco... Ele ao ver a menina fitando-o, sorriu e a convidou para sentar-se e com ele apreciar as pessoas e suas atitudes.
Ela, assustada e encantada, sem pensar muito sentou-se.
- Quem é você? Nunca o vi por aqui! Indagou a menina.
- Nunca me viu, porque anda contando passos, perdida em seus pensamentos ou afazeres, assim como todas estas pessoas que passam por aqui a cada minuto. Quem sou? nunca interessou a ninguém.
- Onde mora? Quantos anos o senhor têm?
- Meu verdadeio lar é em meu coração, em minhas lembranças. Mas durmo e acordo neste banco, diariamente por anos...
- Não me disse sua idade! Fui muito indelicada?
- De maneira alguma pequena... Mas antes que eu lhe diga, lembre-se que nossa verdadeira idade está no que fazemos em nossa vida, está nos sorrisos e nas lágrimas que esbanjamos durante a vida... Na conta dos oficiais tenho apenas 85, pelas minhas, mais de 100. E você?
- Poxa, se for assim senhor, ainda nem saí das fraldas. Tem 22 anos oficiais, mas pela sua forma de contar, tenho poucos. Pouco tenho vivido. Sinto as vezes que sobreviver é apenas o que faço. Assim não há muito o que contar, não é mesmo?
- Pequena, olhe para estas pessoas. Todas correm sem sentido. Fazem a mesma coisa, buscam a mesma coisa e não digo que estão erradas, porém acredito que cada uma delas podeira ser mais feliz. Um pouco mais a cada dia. Há felicidade em todos os cantos de nós.
- Os artistas são felizes, vivem de acordo com suas inspirações.
- Nem sempre, em tudo que se faz minha querida é preciso que haja amor e dom. Você pode ser um juíz com alma de artísta, ou seja, dentro do que defende, você terá liberdade, amor e euforia ao fazer. A liberdade está em você também.
- Discordo. Temos tantas limitações, não digo físicas ou mentais, mas sociais...Entende como não há liberdade?
- Abra seus olhos querida e olhe para sí, deixe que todos acreditem que não és livre e escape pelas frestas de sua imaginação. Procure em cada um algo de bom, e guarde pra sí, chore com a dor alheia e seja humana, respeite outros espaços e forneça liberdade, lute pela sua com garras de águia e a use com a tranquilidade de uma preguiça. Bom, agora tenho que ir...
- Como assim, pra onde? Você me disse que morava aqui.
- Pois bem, eu morava e fui despejado pela maldade que assolou este mundo. Ontem a noite, três jovens mais ou menos da sua idade, se aproximaram de mim e começaram a me bater sem motivo de o fazer. Até ontem pequena, eu acreditava na vida e fui livre dentro de mim. Até ontem eu era um zé ninguém dormindo no banco de uma praça, um Zé que aguardava alguém sem preconceitos de imagens para sentar ao meu lado e ouvir pensamentos soltos de um velho sobre a vida, sobre a alma, sobre alegria e liberdade. Você chegou hoje, atrasada, porém eu ainda a esperava. Até breve! E lembre-se sempre da importância de viver além de tudo que o cerca.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
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Um comentário:
Até ontem, pensava que muitas das coisas que fazia/pensava eram individualmente MINHAS. Mas não.
Te adoro, Luana.
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